A presidência de Biden não será transitória

Já durante a campanha eleitoral, uma eventual eleição de Joe Biden havia sido classificada como um mandato transitório, tanto para a idade do candidato quanto para a figura, considerada um compromisso entre as várias correntes do Partido Democrata, inseridas no quadro eleitoral competição com o objetivo de tirar Trump da Casa Branca. Essa interpretação revelou uma subestimação do candidato democrata, que, após a eleição e os primeiros cem dias na presidência, destacou uma ação que quer ser contundente e deixar sua marca na política americana, ou seja, tudo menos um mandato de transição. O desejo de lançar um plano muito ambicioso para reformar os Estados Unidos e implementar uma política muito forte de bem-estar, destaca a intenção de tomar medidas destinadas a alcançar uma mudança para uma época. A reforma do país americano, porém, não é o único instrumento de caracterização que Biden pretende utilizar para caracterizar sua presidência; paralelamente a sua atenção à política interna, o presidente dos Estados Unidos também deu ênfase à política externa, trazendo de volta ao centro das atenções os discursos da Guerra Fria, desta vez não dirigidos contra a União Soviética, mas contra a China. Palavras foram dirigidas contra Pequim que nenhum dos predecessores de Biden jamais usou e os ataques foram realizados diretamente contra o presidente chinês e os principais líderes chineses. O ponto central é que a classe dominante chinesa apóia o fracasso da democracia e leva avante, de maneiras sutis, que vão desde o uso de grandes recursos financeiros no exterior e o uso de soft power, uma espécie de crença na bondade do sistema chinês no exterior. Um dos motivos que Biden destacou é a necessidade de muito tempo para chegar ao poder por meios democráticos, um obstáculo para atingir os objetivos ambiciosos dos projetos chineses. Do ponto de vista político, a crítica parece correta, ainda que se deva destacar que para a China nunca esteve em pauta a questão do desenvolvimento democrático de seu sistema político, justamente por uma aversão natural à força política hegemônica. .: o Partido Comunista Chinês, que escolheu a via autoritária precisamente como sistema central, através do qual perseguir os objetivos de crescimento nacional, favorecido por um sistema sem regras de proteção dos direitos e do trabalho. Essa modalidade tem favorecido o crescimento econômico em um sistema de competição desequilibrada a favor de Pequim, mas que agradou muitos empresários ocidentais e, portanto, também americanos. A crítica de Biden, portanto, dirige-se indiretamente àqueles industriais, que, para seu ganho, permitiram o crescimento da China até em detrimento dos EUA e representa o desejo de trazer de volta grandes fatias da produção para o campo ocidental e isso certamente é a pior ameaça para Pequim, porque a ataca do ponto de vista econômico; justamente por isso devemos esperar a continuação da disputa comercial em patamares cada vez maiores. O desejo de evitar que a China se torne a nação mais importante do mundo, justamente em detrimento dos EUA, mas também impondo seu próprio sistema político, torna-se assim parte importante do programa político de Biden e funcional para esse fim é também a manutenção de uma forte presença no Oceano Pacífico, bem como na Europa, justamente para salvaguardar objetivos chineses como Taiwan, e para proteger as rotas marítimas de comércio, numa parte do mundo que a China considera sua área exclusiva de influência. Biden implementa uma estratégia geral, que vai contra a política de Trump: grandes planos de desenvolvimento em solo americano, um extremismo da dialética com a China, identificada como oponente número um no campo geopolítico e econômico, uma tática funcional para agregar a população americana no sentido nacionalista e conter o principal concorrente e, por fim, recolocar o centro da política externa na aliança com a Europa e as demais potências ocidentais em um quadro de união baseado em interesses comuns, onde prevalecem objetivos gerais, mas também funcionais a singulares. uns. Este é um projeto ambicioso, longe de ser transitório, que se concluído, mesmo que parcialmente, poderia fornecer a Biden muitas possibilidades para uma nova eleição, presumivelmente em um duelo renovado com Trump.